Os sábados 5S da Capitã

A capitã não tem televisão 3D em casa. Mas não precisa pois tem sábados 5S.

Ao sábado os sentidos estão mais apurados. Tudo provoca o corpo, tudo o desperta com mais intensidade.

Pela manhã a cozinha é invadida pelo perfume do café acabado de moer, é a promessa de um pequeno-almoço com tempo, com conversa, risos e planos para o dia.

Mesmo que esteja frio, o céu é luminoso e tudo parece mais brilhante que o costume. Olhando pela janela é impossível contar o número dos diferentes verdes da paisagem.

Durante a tarde, enquanto veem um filme, a capitã ouve o bater das agulhas de tricot dos lavoures de Miss Bird, e como se de uma melodia mágica se tratasse, fica hipnotizada numa espécie de estado de paz com o universo.

O sol põe-se e um bolo acabado de fazer foge do forno e transforma-se na companhia perfeita do sabor a mel e gengibre do chá.

A Capitã adormece sentindo o toque suave de uma mão pousada no seu ombro e percebe então que nestes dias em 5S é uma festa sentir a vida.


O Conserto

A Capitã Spiquing pousou a chave de parafusos e sussurrou:

– Agora é só pôr as pilhas e isto volta a funcionar.

E assim foi, colocou a balança no chão da casa de banho, tocou-lhe com a ponta do pé direito e a luzinha verde iluminou-se.

– Miss Bird! Arranjei a balança!! – disse com orgulho e alegria.

Resolveu pesar-se mas logo reparou que alguma coisa não estava bem.

– Mas espere… a máquina pesa mas está mal… Está a ler no mínimo dois quilos a mais que a realidade. Isto agora para arranjar só comendo sopa, e apenas sopa, ao jantar durante dois meses. Não me parece que seja das pilhas…


Um citrino inocente

D. Maria, a senhora que faz a limpeza da cafetaria dos funcionários do aeroporto, aproximou-se e cumprimentou-me com euforia.

– Capitã!! Que óptimo que está aqui! Queria lhe agradecer por me ter criado o Hotmail ontem.

– Olá D. Maria. Eu só criei o seu endereço de email. O Hotmail foi a Microsoft.

– Quem? Aquela moça pequena do controlo de bagagem? Ela é estrangeira? Bem, não interessa. Trouxe-lhe um bolo, Capitã! Eu sei que gosta de um docinho.

– Ah, D. Maria, vem mesmo a calhar agora com o café. Eu nem sei se devia… porque engordei nas férias.

– Sim, está com o rabo maior. Mas só um bocadinho.

E depois de sentir que a cadeira tinha ficado com o assento ligeiramente menor, lá cortei uma fatia.

– Hummm… está uma delícia! Sabe mesmo a laranja.

– Claro que sabe! E sabe porquê? Pensa que eu ponho só raspas? Nã!! Antes de misturar tudo eu TORTUREI a laranja na Bimby! E só depois o que sobrou dela picadinha é que juntei na massa. E também TORTUREI umas amêndoas.

Eu já ouvi as coisas mais inimagináveis sobre esta Bimby. Sei que faz Bacalhau com Natas, massa de vidraceiro, almôndegas, cimento cola, bainhas de calças, sudokus de elevado grau de dificuldade, etc, mas nunca pensei que fossem tão longe.

Nunca gostei desta máquina!


Em Junho e depois de Junho

Junho foi sempre o mês favorito da Capitã. Desde criança. Ao dia um nunca deu grande importância. É certo que a avó paterna jamais deixou passar em claro esta data e um presente era sempre bem-vindo, mas era o sol longo que lhe alegrava o espírito.

Junho era o princípio dos dias inteiros a andar de bicicleta, a subir árvores e a chegar a casa pronta para um banho e boa comida.

O mês das fugas da escola para os jardins da cidade, do cartucho de papel pardo cheio de cerejas vermelhas compradas na merceeira da esquina e comidas entre conversas sérias nos degraus da igreja.

O mês do primeiro beijo.

Em Junho estava sempre bandeira verde.

Ainda é o seu mês favorito. O sol entra pela janela da sala e insiste em ficar.

Gosta de sentir o sopro do ar quente da rua assim que sai da frescura da pedra que forra o átrio da escada do prédio.

Em Junho há caracóis e imperiais.

Foi num voo durante a noite de Santo António que saiu do cockpit e ofereceu uma sardinha a Miss Bird.

Nos últimos tempos Junho traz consigo trabalho intenso e saudades duras. Mas como o trabalho acaba e as saudades se matam, passou a ser um mês de promessa de Verão. E isso é bom.

A Capitã é uma pessoa feliz, mas em Junho é sempre mais feliz ainda.


Sem recuar!

A Capitã arqueou as costas, sentiu a contracção dos glúteos e pensou: “Como é que eu me coloquei nesta situação? Agora é tarde, não consigo sair daqui.”

O calor que sentia na cara e no tronco parecia deixá-la ainda mais irracional. “Tenho de recuar… Tenho de mentir sobre as minhas intenções… só assim resolvo este imbróglio em que acabei de me meter….”.

Mas as pernas tremiam, e todo o corpo parecia dominado por uma energia mágica. ” Não recuo! É tarde demais!”

E num impulso esticou o braço direito, segurou a raquete com firmeza e fez um voley que colocou a bola mesmo sobre a linha: “40/15!” gritou enquanto sorria.


Os provérbios de Miss Bird

– Miss Bird assuma que é trapalhona com os provérbios polpulares e com as expressões idiomáticas!

– Eu??! Isso é falso! Se fosse verdade eu até daria a mão a torcer, mas não é!

– Miss Bird! É melhor nem dizer mais nada!

– Capitã, isso é uma leviandade que resolveu dizer só para me importunar. Sabe bem que não me custa nada dar o braço à palmatória quando é evidente que tem razão, mas desta vez não tem.

– Mas…


O presente

– Miss Bird 6A, confesse que me comprou um presente de S. Valentim. Não vale a pena insistir na representação dessa atitude fria.

– Confesso. Comprei, Capitã.

– Eu sabia! E o que é?

– É um vestido!

– Um vestido??! Mas… parece-lhe adequado?.. Eu..

– Muito adequado, Capitã. O vestido assenta-me que nem uma luva. Vai ver que vai adorar a forma como me define a cintura.